terça-feira, 18 de março de 2014

Pesadelos



Amanda Schlosser Gabani
          



            “Se prepare. Você vai sofrer. Você é odiada. Haha! Você vai sofrer...”.
            Acordo sobressaltada. Estava frio lá fora, mas eu suava. Aquilo não havia sido apenas um pesadelo. Era um aviso. E aquela voz... De quem era? Não sei. Mas que frases (e risada) estranhas.
            Levanto e vou até o banheiro. Jogo água fria no rosto e começo a tremer. “Que droga!”, penso, “Jogar água gelada no rosto num dia frio não é uma boa ideia!” Me enxugo e volto para o meu quarto. Estava atrasada para o colégio.
            Geralmente, eu não estaria feliz em ir para o colégio, mas eu adoro dias frios. Fico ainda mais atente e rápida e isso num jogo de queimada não é tão ruim. O que é ruim é que as pessoas me odeiam. Não sou bonita, nem inteligente, nem muito gentil, mas, mesmo assim, não devia ser injustiçada. É cruel. Mas enfim, sendo quem sou, levo muitas boladas na queimada e Thalia, minha (agora única) amiga, também.
            No meio do jogo, Thalia leva uma bolada na cabeça. Essa doeu! Em mim também! “Que coisa!”, penso, “Por que estou ‘conectada’ justo a ela? Ela sempre se machuca!” e vou até ela.
            Há uma coisa boa em Thalia: ela não se importa com quem sou. Não se importa com minhas “habilidades”, nem nada.
 Conto para ela meu pesadelo e, no meio de uma frase, uma bola vem voando em nossa direção. Eu a pego com a mão esquerda, sem nem olhar para a bola. As garotas do outro time começam a gritar, dizendo que sou estranha. Quando tento ir ao encontro delas, Thalia segura meu braço:
            − Não vale a pena! Deixe para lá! – grita - Ainda consegue controlá-los? Eles estão aumentando? – afirmo com a cabeça. “Sim”, penso, “meus poderes estão aumentando...”
            Sim, eu tenho poderes. Só Thalia sabe. Eu prevejo o futuro e, de alguma forma, sei sentir a dor das pessoas, caso eu queira. Estou ‘conectada’ de alguma forma à Thalia, então sinto todas as dores dela. Estamos assustadas com meus pesadelos, que sempre se realizam. Aliás, hoje nos salvei de uma bola voadora. Mas, tirando isso, odeio meus... poderes. Não gostaria de tê-los! Afinal, quem quer ver seu amigo morrer? Quem quer saber que uma amiga tentaria algo estúpido, sem saber o que fazer para impedi-la? E agora, sei que eu vou sofrer. Mas não estou com medo. Já sofri muito minha vida toda. O que quer que aconteça comigo, sei que será suportável.
            Fomos para a aula de... do que mesmo? Não lembro. Estava ocupada. Estava tentando escrever uma carta para meus pais. Se algo acontecesse comigo, queria que eles soubessem. Mas as palavras não saíam. Meu coração batia forte de agonia quando tudo começou.
            Eu adoro escrever poemas, mas essa professora, que agora estava de pé na minha frente, os odiava. Eu estava relendo alguns, − em voz baixa – então ela me obrigou a levantar e a lê-los. Quando acabei, queria chorar, mas não conseguia. Todos, menos Thalia, riam. Loucamente. Mas me ocorreu uma ideia, que provocaria o final de minha história.
            Se eu consigo sentir a dor de todos, talvez consiga transferir a minha para eles! De repente, alguns começaram a chorar, outros a se contorcer de dor. Dava certo! Mas... certo demais. Thalia também começou a sentir dor, e eu “acordei”, mas não conseguia fazer aquilo para! Feri a todos.
            Então comecei a correr, mas para onde iria? Eu estava só, pois era, sou, um monstro. É, a voz no meu sonho estava certa. Esses pensamentos iam e vinham na minha cabeça, quando minhas pernas falharam e minha visão escureceu. Eu caio no breu. As últimas coisas que passaram na minha cabeça foram as frases finais de um dos meus poemas:
“Não me lembrarei de mais nada
             E lágrimas não me irão escorrer
             Mas de meus pecados não serei perdoada            
             Quando eu morrer”
Não me lembro de mais nada.            

Nenhum comentário:

Postar um comentário