Amanda
Schlosser Gabani
“Se prepare. Você vai sofrer. Você é
odiada. Haha! Você vai sofrer...”.
Acordo sobressaltada. Estava frio lá
fora, mas eu suava. Aquilo não havia sido apenas um pesadelo. Era um aviso. E
aquela voz... De quem era? Não sei. Mas que frases (e risada) estranhas.
Levanto e vou até o banheiro. Jogo
água fria no rosto e começo a tremer. “Que droga!”, penso, “Jogar água gelada
no rosto num dia frio não é uma boa ideia!” Me enxugo e volto para o meu
quarto. Estava atrasada para o colégio.
Geralmente, eu não estaria feliz em
ir para o colégio, mas eu adoro dias frios. Fico ainda mais atente e rápida e
isso num jogo de queimada não é tão ruim. O que é ruim é que as pessoas me
odeiam. Não sou bonita, nem inteligente, nem muito gentil, mas, mesmo assim,
não devia ser injustiçada. É cruel. Mas enfim, sendo quem sou, levo muitas
boladas na queimada e Thalia, minha (agora única) amiga, também.
No
meio do jogo, Thalia leva uma bolada na cabeça. Essa doeu! Em mim também! “Que
coisa!”, penso, “Por que estou ‘conectada’ justo a ela? Ela sempre se machuca!”
e vou até ela.
Há uma coisa boa em Thalia: ela não
se importa com quem sou. Não se importa com minhas “habilidades”, nem nada.
Conto para ela meu pesadelo e, no meio de uma
frase, uma bola vem voando em nossa direção. Eu a pego com a mão esquerda, sem
nem olhar para a bola. As garotas do outro time começam a gritar, dizendo que
sou estranha. Quando tento ir ao encontro delas, Thalia segura meu braço:
− Não vale a pena! Deixe para lá! –
grita - Ainda consegue controlá-los? Eles estão aumentando? – afirmo com a
cabeça. “Sim”, penso, “meus poderes estão aumentando...”
Sim, eu tenho poderes. Só Thalia
sabe. Eu prevejo o futuro e, de alguma forma, sei sentir a dor das pessoas,
caso eu queira. Estou ‘conectada’ de alguma forma à Thalia, então sinto todas
as dores dela. Estamos assustadas com meus pesadelos, que sempre se realizam.
Aliás, hoje nos salvei de uma bola voadora. Mas, tirando isso, odeio meus...
poderes. Não gostaria de tê-los! Afinal, quem quer ver seu amigo morrer? Quem
quer saber que uma amiga tentaria algo estúpido, sem saber o que fazer para impedi-la?
E agora, sei que eu vou sofrer. Mas não estou com medo. Já sofri muito minha
vida toda. O que quer que aconteça comigo, sei que será suportável.
Fomos para a aula de... do que
mesmo? Não lembro. Estava ocupada. Estava tentando escrever uma carta para meus
pais. Se algo acontecesse comigo, queria que eles soubessem. Mas as palavras
não saíam. Meu coração batia forte de agonia quando tudo começou.
Eu adoro escrever poemas, mas essa
professora, que agora estava de pé na minha frente, os odiava. Eu estava
relendo alguns, − em voz baixa – então ela me obrigou a levantar e a lê-los.
Quando acabei, queria chorar, mas não conseguia. Todos, menos Thalia, riam.
Loucamente. Mas me ocorreu uma ideia, que provocaria o final de minha história.
Se eu consigo sentir a dor de todos,
talvez consiga transferir a minha para eles! De repente, alguns começaram a
chorar, outros a se contorcer de dor. Dava certo! Mas... certo demais. Thalia
também começou a sentir dor, e eu “acordei”, mas não conseguia fazer aquilo
para! Feri a todos.
Então comecei a correr, mas para
onde iria? Eu estava só, pois era, sou, um monstro. É, a voz no meu sonho
estava certa. Esses pensamentos iam e vinham na minha cabeça, quando minhas
pernas falharam e minha visão escureceu. Eu caio no breu. As últimas coisas que
passaram na minha cabeça foram as frases finais de um dos meus poemas:
“Não me lembrarei de mais nada
E lágrimas não me irão escorrer
Mas de meus pecados não serei perdoada
Quando eu morrer”
Não
me lembro de mais nada.

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