quinta-feira, 20 de março de 2014

Noite Nebulosa



Luiza Bradasch Kohler
 Era uma tarde calma de domingo. A chuva caia e as ruas estavam vazias. Sentia-me em uma cidade fantasma, pois era verão e todos tinham ido às praias mais próximas.
 Estava eu observando atentamente cada detalhe de minha nova casa. Era uma construção recente com pertences do antigo morador que aqui faleceu.
 Pude perceber que tinha bom gosto. Haviam muitos quadros pendurados e cortinas de boa qualidade.
 Meus pertences ainda estavam empacotados, pois tinha acabado de me mudar.
 Como já era tarde, resolvi me deitar no sofá da sala principal. Acendi uma vela e logo dormi.
 A lua brilhava no céu, as ruas estavam repletas de neblina. A noite estava fria e ótima para uma boa noite de sono, mas algo tinha me acordado.
 Não sei se foi um pesadelo ou um simples barulho, mas senti um frio dentro de mim.
 Consegui me colocar a dormir mais uma vez, mas o mesmo barulho me acordou.
 Agora consegui distinguir o suspeito ruído: era uma cadeira sendo arrastada. Coloquei-me em pé com os olhos arregalados e o coração batendo forte.
 Olhei em todos os quartos, não achei nada suspeito, mas havia uma misteriosa porta no fim do corredor que estava trancada. Sem hesitar, me virei e fui em direção à sala.
 Quando me deitei no sofá, a misteriosa porta trancada tinha aberto sozinha. Dentro dela havia uma profunda escuridão.
 Desci as escadas que ali haviam e percebi que era um porão. A suposta “cadeira arrastada” ali se encontrava, caída no chão. Ela estava embaixo de uma corda amarrada no teto. Naquele momento, senti-me gelado novamente.
 Diversos pensamentos passaram pela minha cabeça: como a porta se destrancou sozinha? O que tinha feito o antigo morador da casa? Talvez tivesse se enforcado!
 Como poderia, eu, o mais medroso da cidade, conviver com um suicídio em minha casa?
 Subi as escadas e, como sabia que não conseguiria dormir novamente, fui andar pelo meu novo bairro.  
Era tarde da madrugada, senti-me em uma noite sem fim. Passei em frente a uma estação de metro, só me sentei e vi-o passar. Mas um a coisa me assustou. Não vi o meu reflexo nas janelas do metro. Conseguia ver tudo o que estava atrás de mim, menos o meu reflexo.
 O medo se estabelecia em minha mente e o frio tomava o meu corpo. Na medida em que o metro passava, o ar que me cercava ficava mais rarefeito e o meu corpo ficava mole. Minha cabeça pesada, minhas pálpebras se fechando e senti como se o meu desmaio fosse em câmera lenta.
Quando acordei, andei pelas mesmas ruas que tinha passado para chegar à estação de metro.


Havia muita neblina nas vazias ruas. Mal conseguia enxergar os meus próprios pés, quando percebi que andei por mais de dez minutos e não tinha saído do lugar.
 No momento que estava perdendo a esperança de voltar para casa, o sol nasceu e a neblina se foi.
 Voltei para casa, assustado com tudo o que tinha acontecido, e ouvi, em meu jardim, minha falecida mãe me chamando.
 Fiquei tão assustado que corri para dentro de casa e tranquei todas as portas e janelas
 Quando entrei em casa, percebi que todos os meus pertences das caixas estavam desempacotados, tudo em seu devido lugar. Mas o estranho mesmo foi que tudo combinava com a decoração da casa.
 Estava assustado com tudo o que tinha acontecido naquele longo dia. Resolvi pegar o meu computador e pesquisar sobre a historia do antigo morador da casa.
 Não consigo expressar o que senti naquele momento em uma simples folha de papel com essa; mas estava tão surpreso e assustado que mal me aguentei em pé!
 Tinha acabada do ler e descobrir o porquê da porta do porão ter aberto sozinha, o porquê de ter ouvido a minha falecida mãe me chamar, o porquê dos meus pertences combinarem com a decoração da casa, o porquê da neblina, e principalmente, o porquê da corda pendurada em cima da cadeira.
 Eu era o antigo e misterioso morador da casa. Eu estava ouvindo mortos e vendo neblina, pois eu estava morto. Tinha me enforcado no escuro e sinistro porão.
 Estava tudo na ponta do meu nariz, eu só não queria enxergar a verdade. Agora que esta tudo mais simples e claro, posso seguir o meu caminho.
 



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