Luiza Bradasch Kohler
Era uma tarde calma de domingo. A chuva caia e
as ruas estavam vazias. Sentia-me em uma cidade fantasma, pois era verão e
todos tinham ido às praias mais próximas.
Estava eu observando atentamente cada detalhe
de minha nova casa. Era uma construção recente com pertences do antigo morador
que aqui faleceu.
Pude perceber que tinha bom gosto. Haviam
muitos quadros pendurados e cortinas de boa qualidade.
Meus pertences ainda estavam empacotados, pois
tinha acabado de me mudar.
Como já era tarde, resolvi me deitar no sofá
da sala principal. Acendi uma vela e logo dormi.
A lua brilhava no céu, as ruas estavam
repletas de neblina. A noite estava fria e ótima para uma boa noite de sono,
mas algo tinha me acordado.
Não sei se foi um pesadelo ou um simples
barulho, mas senti um frio dentro de mim.
Consegui me colocar a dormir mais uma vez, mas
o mesmo barulho me acordou.
Agora consegui distinguir o suspeito ruído:
era uma cadeira sendo arrastada. Coloquei-me em pé com os olhos arregalados e o
coração batendo forte.
Olhei em todos os quartos, não achei nada
suspeito, mas havia uma misteriosa porta no fim do corredor que estava
trancada. Sem hesitar, me virei e fui em direção à sala.
Quando me deitei no sofá, a misteriosa porta
trancada tinha aberto sozinha. Dentro dela havia uma profunda escuridão.
Desci as escadas que ali haviam e percebi que
era um porão. A suposta “cadeira arrastada” ali se encontrava, caída no chão.
Ela estava embaixo de uma corda amarrada no teto. Naquele momento, senti-me
gelado novamente.
Diversos pensamentos passaram pela minha
cabeça: como a porta se destrancou sozinha? O que tinha feito o antigo morador
da casa? Talvez tivesse se enforcado!
Como poderia, eu, o mais medroso da cidade,
conviver com um suicídio em minha casa?
Subi as escadas e, como sabia que não
conseguiria dormir novamente, fui andar pelo meu novo bairro.
Era
tarde da madrugada, senti-me em uma noite sem fim. Passei em frente a uma estação
de metro, só me sentei e vi-o passar. Mas um a coisa me assustou. Não vi o meu
reflexo nas janelas do metro. Conseguia ver tudo o que estava atrás de mim,
menos o meu reflexo.
O medo se estabelecia em minha mente e o frio
tomava o meu corpo. Na medida em que o metro passava, o ar que me cercava
ficava mais rarefeito e o meu corpo ficava mole. Minha cabeça pesada, minhas
pálpebras se fechando e senti como se o meu desmaio fosse em câmera lenta.
Quando acordei,
andei pelas mesmas ruas que tinha passado para chegar à estação de metro.
Havia
muita neblina nas vazias ruas. Mal conseguia enxergar os meus próprios pés,
quando percebi que andei por mais de dez minutos e não tinha saído do lugar.
No momento que estava perdendo a esperança de
voltar para casa, o sol nasceu e a neblina se foi.
Voltei para casa, assustado com tudo o que
tinha acontecido, e ouvi, em meu jardim, minha falecida mãe me chamando.
Fiquei tão assustado que corri para dentro de
casa e tranquei todas as portas e janelas
Quando entrei em casa, percebi que todos os
meus pertences das caixas estavam desempacotados, tudo em seu devido lugar. Mas
o estranho mesmo foi que tudo combinava com a decoração da casa.
Estava assustado com tudo o que tinha
acontecido naquele longo dia. Resolvi pegar o meu computador e pesquisar sobre
a historia do antigo morador da casa.
Não consigo expressar o que senti naquele
momento em uma simples folha de papel com essa; mas estava tão surpreso e
assustado que mal me aguentei em pé!
Tinha acabada do ler e descobrir o porquê da porta
do porão ter aberto sozinha, o porquê de ter ouvido a minha falecida mãe me
chamar, o porquê dos meus pertences combinarem com a decoração da casa, o porquê
da neblina, e principalmente, o porquê da corda pendurada em cima da cadeira.
Eu era o antigo e misterioso morador da casa.
Eu estava ouvindo mortos e vendo neblina, pois eu estava morto. Tinha me
enforcado no escuro e sinistro porão.
Estava tudo na ponta do meu nariz, eu só não
queria enxergar a verdade. Agora que esta tudo mais simples e claro, posso
seguir o meu caminho.
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